Formação

Encontro da Juventude: Corpo, templo do Espírito Santo

Conduzidos por I Coríntios 6, 12-20

Somos imagem e semelhança de Deus e isso já seria o suficiente para vermos e cuidarmos do nosso corpo como tal.

A palavra Hebraica para imagem é “tzelem” que é derivada da palavra mais curta, “tzel”, que significa “sombra”. Quando raios de luz caem sobre qualquer coisa, uma sombra (tzel) aparece perto dela. De acordo com a Bíblia, um ser humano é nada mais do que a imagem (tzelem) de Deus, porque ele(a) refletem de diversas maneiras a perfeição e beleza Divina.

Originalmente fomos criados a imagem de Deus. (Nascemos originais mas insistimos em morrer como fotocópias. Beato Carlo Acutis)

Quando as Escrituras inspiradas revelam que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, conforme nos aponta São João Paulo II, é evidenciada a “impossibilidade absoluta de reduzir o homem ao ‘mundo’”, isto é: o homem não pode e nem deve ser compreendido, nem explicado, com as categorias deduzidas do mundo, isto é, do “conjunto visível dos corpos” (Teologia do Corpo, 2).  O pensamento dos estudiosos parece querer reduzir o homem ao mundo, repudiando qualquer explicação da vida humana que recorra a um plano transcendente – assim mundanizando nos, animalizando-nos. Mas nós cristão, acreditamos que até a parte racional da alma humana, está claramente enraizada no eterno, num plano transcendente, isto é, no divino, ainda que nosso corpo visível esteja presente na natureza, juntamente dos outros seres e coisas. Mas a razão principal de tantas escolas de pensamento tentarem negar a transcendência, e desumanizar o homem, no período moderno, e essa negação também se fazer presente na prática de tantos seres humanos tem uma explicação: trata-se de uma consequência do pecado original.

O ser humano foi criado como sujeito de uma aliança, constituído como pessoa – superior aos animais– e à altura de “companheiro do Absoluto” (Teologia do Corpo, 6). Dotado de alma – onde está impressa a imagem e a semelhança de Deus, seu Criador – e de liberdade, é dado ao homem “discernir e escolher conscientemente entre o bem e o mal”, quando Deus estabelece o limite que o ser humano deveria respeitar para permanecer em plena aliança. Tratava-se de uma escolha entre a vida e a morte: comer da árvore da ciência do bem e do mal, barrar-lhe-ia o acesso à árvore da vida. É da vontade de Deus que o homem viva plenamente, e esteja absorvido inteiramente pela aliança – mas a permanência na relação com Deus deve ser uma escolha livre do ser humano.

Não há verdadeira relação quando uma das partes é privada de liberdade, e mesmo os vínculos humanos mais definitivos, como o casamento, expressam isso: nesses, não há perda de liberdade, mas o ganho de uma realidade relacional rica, com o livre consentimento da pessoa. E assim como a intimidade mútua de um casal aumenta e se enriquece com o tempo e a convivência, também assim acontece entre a alma de uma pessoa e Jesus Cristo.

Os animais, por sua vez, não são livres, pois, não tendo alma racional, apenas obedecem a seus instintos; nós, humanos, temos instintos – alma vegetativa, alma sensitiva – mas também respondemos a Deus, com nossa alma propriamente humana. Nisso tudo encontra-se a irracionalidade da concepção pós-moderna de “liberdade”, que seria algo como não estar limitado por nenhuma restrição (seja interna, ou externa) e, logo, não precisar responder por nada. Mas a realidade de nossa verdadeira e inescapável liberdade – enraizada em nossa alma, e em sua semelhança, e relação, com o Criador – apenas estabelece que somos livres para escolher o mal, mas jamais isentos das consequências dessa escolha. Portanto, a escolha do bem também deve necessariamente ser livre, intencional, consciente e proposital.

Todos os esforços políticos de escolas modernas como o socialismo marxista, entre outras utopias, nada mais é do que a imaginação de um estado de coisas em que a vida humana seria essencialmente boa, e socialmente perfeita, sem que fosse necessário um esforço consciente para o bem.

Trata-se, precisamente, do falso paraíso na terra, o verdadeiro ópio do povo, que na prática só resulta no seu contrário, e a tantos infernos concretiza em nossa realidade. Para não cair nestas perigosas iscas, deve-se reconhecer duas coisas sobre a alma humana: ela traz em si a semelhança com Deus, e a relação com Ele, a memória e o desejo do paraíso; mas também, intrinsecamente, traz as más inclinações, inextirpáveis nesta vida, herdadas do pecado original. Portanto, qualquer regulação legítima da vida humana, individual e social, deve partir dessa percepção, e da necessidade de uma educação para a liberdade, para a responsabilidade, e para o amor.

Juventude Siyyõn

Portanto, o corpo do homem é realidade do vínculo do homem com o seu Criador, em vez de ser algo de que o homem devesse se desvencilhar, para restar somente a alma, esta sim boa e divina. O corpo do homem possui uma dimensão de sacramento, isto é, de realidade e sinal visível daquilo que ocorre em sua alma – pense, especialmente, no rosto humano, e suas finas expressões emocionais, assim como seus sorrisos, reveladores, na dimensão visível, de algo que somente o ser humano vive na dimensão invisível. Com o ser humano, no princípio – e, em especial, antes do pecado original – entrou a santidade no mundo visível, que, por sua vez, foi criado por Deus para o homem. Aí também se expressa o amor especial que Deus tem para conosco, diante de toda a criação. “Na criação, antes do pecado original, o homem se constitui como que um primordial sacramento, entendido como sinal que transmite eficazmente ao mundo visível o mistério invisível, oculto em Deus desde a eternidade. (…) O corpo, de fato, e só ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino.

O corpo humano é lugar de santidade, lugar onde Deus se torna visível à totalidade da criação. “A consciência do dom [de si mesmo, corpo e alma] condiciona, nesse caso, ‘o sacramento do corpo’: o ser humano se sente, no seu corpo de varão e de mulher, sujeito de santidade” (Teologia do Corpo, 19). Nosso corpo não foi criado para o pecado, mas para a santidade.

“A situação interior e, ao mesmo tempo, cultural do homem de hoje parece afastar-se daquele ‘princípio’ e assumir formas e dimensões que divergem da imagem bíblica do ‘princípio’ em pontos evidentemente cada vez mais distantes” (Teologia do Corpo, 23).

São João Paulo II na Teologia do Corpo nos diz que é preciso o reencontro da plenitude e da verdadeira realização, é, de fato, “uma ilha de valor em um mar de preços”.

A religião católica é comumente referida pelo homem moderno tomado pelo ethos da rebelião como sendo uma instituição “repressora da sexualidade”, ou que considera tudo o que é “sexual” como “pecado”, e nada está mais distante da verdade do que essa visão e a prova são as catequeses de São João Paulo II e tantos outros documentos da Igreja, o que Jesus Cristo realmente nos trouxe, na Nova Aliança, é a possibilidade de recuperarmos o verdadeiro valor do corpo e da sexualidade, um altíssimo, sagrado valor – e da vida humana em si mesma.

 

Julineide Mendes
Consagrada na Comunidade de Aliança com Promessas definitivas

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