Formação

Identidade do Carisma Filhos de Sião

Deus, em Seu desígnio de Amor, escolheu-me para fundar um Carisma. E, hoje, o convite que se faz volta-se a falar um pouco sobre o Carisma Filhos de Sião. Primeiramente, quero dizer que o Carisma é dom, algo dado de graça. Deus dá-nos os seus dons. Em nosso caso, Ele deu-nos um dom. E, um dia, ao partilhar com o nosso antigo pároco, hoje Servo de Deus Monsenhor Waldir, ouvimos que esse dom tinha um nome e esse nome era Filhos de Sião. Ele, questionado por mim, foi explicar-nos o que era “Sião”.

A Bíblia tem diversas formas de dizer Sião. Primeiramente, refere-se a um Monte no qual o povo escolhido por Deus comunicava-se com Ele. Aquele povo acreditava que só se era possível encontrar-se com o Senhor nas montanhas. Sião, também, é cognominado o Povo de Deus. A esse povo Deus disse: “Pode uma mãe abandonar o seu filho? Ainda que isto aconteça, Eu não o abandonarei jamais” (Is 49, 15). Em outro momento, Sião é o próprio Deus. Então, Sião é Deus. Sião é Céu. Sião é o povo encontrado por Deus, e que se decidiu caminhar para Ele. Que O assume como Seu Senhor e Seu Deus. Isso somos nós: Filhos de Sião, filhos de Deus, filhos da Igreja, povo eleito, povo chamado, povo escolhido. Selecionado para caminhar com Ele na obediência. Ele é o Nosso Deus e nós somos o Seu povo.

Sião é o dom de Deus. Recebemos esse dom quando estávamos na Serra da Meruoca, há 23 anos, no início de nossa caminhada, em um retiro. Acabávamos de encontrar-nos com o Senhor. Estávamos apaixonados. Quando começamos a caminhar, descobrirmos que Deus ama-nos e que o Seu Amor é real. Aquele amor que há muito buscávamos em tantos lugares e que não conseguíamos saciá-lo, vivenciávamos naquele momento.

Aproximava-se a tradicional festa de nossa cidade, o Chitão Maravilha de Marco. Não queríamos ficar. À época, éramos na maioria jovens, apesar de que houvesse em nosso meio algumas senhoras. Temíamos que a nossa humanidade pudesse levar-nos àquela festa. Em oração, sentíamos o desejo de recolher-nos em retiro. Depois, descobrirmos que o retiro seria na Serra da Meruoca. Fomos para lá. Entretanto, para que chegássemos ao local, enfrentamos difíceis obstáculos. Éramos 100 pessoas. Fretamos, dessa forma, dois ônibus, os quais quebraram. Quando consertávamos um, quebrava-se o outro. Apesar de tudo isso, em nossos corações não havia o desejo de voltar. Queríamos continuar. Isso fizemos. Chegamos a Sobral com a ajuda de alguns irmãos conhecidos. Dormimos, e, no dia seguinte, subimos, com mais calma, a Serra da Meruoca. Tínhamos saído do Marco na sexta, à tardinha, depois de nossos trabalhos. Chegamos ao nosso lugar de destino no sábado, ao meio-dia.

No domingo de retiro, uma das pessoas que o conduzia, ao partilhar sobre sua vida, comentou, também, um trecho da de São Francisco: “Um dia, estando São Francisco a passear nos bosques e a contemplar a Paixão do Senhor, começou a chorar. Um camponês que passava, ao vê-lo chorar, perguntou-lhe: ‘Pai Francisco, que houve?’ E São Francisco começou a dizer para aquele camponês que queria que ser todo ele lágrimas, que queria que as comportas lhe emprestassem mais lágrimas para ele chorar a dor e o amor de Seu Senhor que não era amado. O camponês não aguentou e pôs-se a chorar também”. Essa história entrou em cada um de nós. Rasgou-nos. Um grito que se foi ouvindo dentro de nós: “O Amor não é amado, o Amor não é amado, o Amor não é amado!!!”.

São Francisco dispôs-se a chorar a dor de seu Amor, que se encontrava abandonado na Cruz, e que não era amado. Ele ainda termina dizendo: “Ah, se eu tivesse as asas de uma águia e pudesse sobrevoar sobre as cidades e despertar os corações adormecidos e inflamar os corações indiferentes: o Amor não é amado!”. Esse grito pegou-nos. Tomou-nos. Em seguida, na adoração, olhávamos para Jesus, e entregávamos nossas vidas, a dizer: “Estamos aqui. Nós nos dispomos, a partir de hoje, a darmos nossas vidas para Amar o Amor que não é Amado.”.

Eis, aí, o dom de Deus dentro de nós. Eu entendo que, naquele dia, Deus colocou esse dom dentro de nós. É bem certo que ele já existisse desde nosso Batismo. No entanto, não tínhamos ainda conhecimento. Naquele dia, Deus o tornou real. Presente. E verdadeiro em cada um de nós. E, ao descobrirmos a grandiosidade de Deus, que já existia dentro de nós, fomos rendendo-nos ao Seu convite e entregamos nossas vidas para amar o Amor que não é amado. Daí, começamos a estruturar-nos. A constituirmos um corpo: Obra, Comunidade de Vida e Comunidade de Aliança. E, ainda hoje, o Carisma age, e muitas pessoas identificam-se, e dizem: “É assim que eu quero viver.”.

Nós estamos, aqui, hoje, não porque queremos. Talvez, até muitos tiveram preguiça de vir. Mas, no fundo, Deus impulsionou-nos a vir. Empurrou-nos. Deu-nos a coragem. E conseguimos chegar aqui. E por que você veio? Porque Deus quis. Quando Deus mira uma pessoa, ainda que gire o mundo ao contrário, essa pessoa vem a Ele. Ele deu Seu Filho único a morrer daquela forma, em uma cruz, por cada um de nós. Ele é capaz de qualquer coisa. Ele pode fazer tudo girar ao contrário para que você O encontre.

Então, Deus colocou dentro de nós um dom. Uma pérola preciosa. Uma graça. Um jeito de viver a Fé. Um jeito de ser cristão. Um jeito de ser. Esse dom que Deus colocou em cada um de nós, e que chamamos de Carisma Filhos de Sião expressa-se de uma forma própria: amamos o Amor que não é amado por meio do louvor e da adoração. Toda a nossa vida é chamada a ser Louvor e Adoração. Em nosso meio, dizemos assim: “Tá doendo, louve. Tá com problema, louve. Tudo tá uma confusão, louve. Tá passando por momentos difíceis na família, louve.” Nós não nos preocupamos em pedir. Nossa preocupação primeira é louvar. E, assim, vamos a trocar o murmúrio, que é o louvor de satanás, pelo louvor de Deus. Pelo louvor vamos aproximando-nos Dele, e, quando estamos perto de Deus, temos tudo que precisamos.

Eu passei a minha juventude querendo ser feliz. Fiz tudo que possa imaginar-se para ser feliz. Descobri, depois, que, como Santo Agostinho, ela já estava dentro de mim. Santo Agostinho, quando se encontrou com Jesus, disse: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Eu te procurava fora e tu estavas dentro de mim.”. Deus está bem próximo. Só precisamos deixar Ele sê-lO. Ele agir. Ele fazer. Em razão disso você veio para cá. Você é um escolhido. Um eleito. É alguém que Deus colocou os olhos, chamou para ser feliz. Pensávamos que ser de Deus, da Igreja, era ser beato, mas não! Não, gente! Se há uma coisa que nos deixa livres é o Evangelho! Quem está fora de Jesus, no mundo, é escravo: da bebida, da mentira, da ganância e de tantas outras coisas! Quem está no mundo é escravo. Você já não é você!

Se dentro de você já há algo belo, por fora também haverá! Se em seu interior as coisas se organizarem, por fora também se ajustarão. A manifestação de sua beleza interior será esplêndida! Só precisamos descobrir Jesus, e nos deixarmos conduzir por Ele. Já que o Senhor lhe trouxe para cá, abra seu interior, e permita que Ele revele quem você é. Toda a Filosofia revela que o Senhor é o Belo dos belos. Então, você é belo porque foi Ele quem nos teceu e é por isso que Ele não cessa de lhe chamar. Porque Ele quer que essa beleza revele-se. Apareça. Extravase. Seja conhecida. Quem está em Jesus é livre. É feliz.

Voltando da Serra da Meruoca, começamos a dar as nossas vidas, a entregarmo-nos para amar o Amor que não é amado. Fomos encontrando outros que, também, queriam amar o Amor. Continuamos a nossa caminhada. Iremos até ao fim gritando que o Amor não é amado! E àqueles que derem uma brecha para Jesus, Deus atrai-los-á para amar o Amor. Quando somos batizados, Deus cumula-nos com os Seus dons, e descobrirmos todos os dons que recebemos em nosso Batismo à medida que caminhamos com Jesus. Dons que nem sabíamos que existiam.

Deus usou-se de coisas, de situações e de pessoas para que você estivesse aqui. Nunca imaginamos abrir uma Missão, aqui, em Bela Cruz. Mas porque Deus chamou, Ele se encarrega de mandar pessoas. Você está, aqui, porque Jesus tem coisa para fazer. Porque o Carisma torna-nos braço, mão, perna de Jesus. Hoje, somos nós os seus missionários. Somos nós que devemos dar continuidade à pregação da Palavra de Deus. São Paulo dizia: “Ai de mim se eu não evangelizar”. O Senhor quer você. O Senhor quer-lhe Filho de Sião. O Senhor partilhou os dons Dele com você. Deus colocou uma semente dentro de você, e com a semente pode acontecer duas coisas: ou ela morre, ou ela nasce, cresce e reproduz-se. E eu lhe digo: deixe a semente nascer. Não tenha medo!

Uma vez eu ouvi São João Paulo II dizer: “Jovens, não tenham medo de Jesus! Ele não tira nada, Ele dá tudo”. Ele dá tudo! Quando estudávamos sobre Carisma, lá no início, passamos a entender o que é o chamado, o que é o carisma, e porque Deus nos chama. Eu descobri São Camilo, e a estudar sobre ele, em uma de suas orações, quando ele tinha medo de fundar os Camilianos, o Senhor disse: “Coragem, covarde! Coragem, essa obra não é tua! É Minha!”. Então, nós estávamos discernindo a Comunidade quando apareceu essa situação e eu entendi que a obra não era minha. Que o próprio Deus me chamava de covarde e não era isso que eu queria ser.

Assim, o Carisma começou a crescer e, enquanto ele for útil para a Igreja, para a sociedade, e para a humanidade, ele vai continuar existindo. Mas, se na época de São Francisco, o Amor não era amado, imagina agora! As pessoas têm medo de conhecer Jesus, têm medo de assumir compromissos, de dar a sua vida. Têm medo de perder. Mas a Palavra de Deus diz que só ganha quem perde.  Essa é a graça de caminhar em Deus. Eu sou um milagre. Minha vida é um milagre. E o que eu posso dizer é: seja de Deus. Não perca essa oportunidade. Deus chama a todos. Mas muitos não cedem. Quanto mais os filhos tornam-se difíceis, mais Deus chama.

É por isso que estou aqui. Porque o Grito entrou em mim e mexeu com as minhas estruturas! Talvez muitos não perseverem, mas você tem o mesmo chamado de Céu, de vida feliz, de ser cuidado por Ele! A quem está na Comunidade Deus ama com o amor de proteção. É só ceder!

 

Vander Lúcia Menezes Farias
Fundadora da Comunidade Filhos de Sião 

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