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Quarta Semana: Um deserto fértil – Retiro Quaresmal 2026

Um deserto fértil

No deserto, somos chamados a aprofundar a preparação para a Páscoa do Senhor. É um convite que nos torna livres para fazermos a travessia, para chegarmos ao outro lado, um lugar que nos favorece voltarmos ao coração de Deus. É preciso um arrependimento sincero. Assim como consta no Livro do Profeta Ezequiel: “Arrependei-vos, convertei-vos de vossos delitos, e não caireis em pecado. Lançai fora os delitos que cometestes e formai-vos um coração novo e um espírito novo” (Ez 18,30-31).

Quando vivemos a verdadeira conversão, deparamo-nos com as nossas misérias e indiferenças para com Deus. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas, por nossas fraquezas, vivemos uma luta contra o pecado, que insiste em roubar tal semelhança ao tentar destruir o sentido da vida e, sobretudo, a vida de santidade herdada de Deus.

É tempo de, como almas esposas, percorrermos o caminho da Via-Crúcis: caminho de cruz e ressurreição, caminho de conformar nossa vida a Cristo, agora não mais ao Cristo que idealizamos com nossa maneira rasa de vê-Lo agindo, mas de conformar nossa vida ao Cordeiro que se imolou, atravessando o caminho de oração, jejum e penitência. É tempo de retomar o mistério de Cristo e de nos configurar a Ele, trilhando seus passos. No deserto, Jesus inaugura a sua vida pública, vindo a se consumar na paixão, cruz, morte e ressurreição. O deserto é o lugar do combate com o próprio demônio e, no entanto, também o lugar da intimidade com o divino, pois o deserto é o local do encontro com Deus, onde o homem se vê à luz da Verdade, enxergando realidades interiores e exteriores, e onde ainda precisa se converter.

É uma grande semana para deixarmos o olhar de Jesus pousar sobre nós e rever nossa vida de conversão. O que tem mudado de dentro para fora? O que, fora, tem sido diferente, quando dentro ainda continuam constantes ações de abandono do Senhor? Toda a minha vida está projetada pela intimidade que tenho com Deus, levando-me a amar mais? Será que estou à mercê de amores que apenas ampliam minhas carências e me fazem viver em torno de mim mesmo? Quais são os frutos do meu deserto? Nossa conversão implica uma missão, meus irmãos. Jesus atravessou o deserto sendo tentado para ir à missão, missão essa que foi dada por seu Pai, não a sua, mas a de Deus.

Nesse tempo, somos impulsionados ao silêncio interior, à intimidade com Deus, esse lugar que convida à oração e favorece a escuta da voz do Senhor, que nos arranca da escravidão do pecado para a liberdade do homem novo. Assim aconteceu com o Beato Charles de Foucauld, ao dizer: “Tudo mudou para sempre em minha vida; assim que compreendi que Deus existe, entendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele. Deus é tão grande, e existe uma grande diferença entre Deus e tudo o que não é Deus…”. Foi no deserto que este grande homem fez a grande experiência de sua vida e que o levou a decidir deixar tudo para trás. Assim sendo, o deserto também passa a ser um lugar de decisão!

Fazer a experiência no deserto leva o homem ao encontro com Deus e consigo mesmo. Deus quer, com seu apaixonado amor, recriar o homem. É no deserto que Deus se revela ao homem e o revela a si mesmo: rompe a barreira, mostrando a este homem quem ele é. Neste momento, podemos rezar como o salmista, dizendo ao Senhor: “Ele guiou seu povo pelo deserto, porque o seu amor é para sempre” (Sl 136,16).

É nesse tempo de encontro que vamos colhendo os frutos da ação de Jesus em nossas vidas, através do nosso deserto. São frutos de vida eterna.

Tome nota de tudo o que você consegue perceber da ação transformadora de Deus na sua vida. Apresente ao Senhor e deixe que Ele mesmo a purifique e faça sua vida brilhar como luz para o mundo.

Francisco Adriano Silva
Cofundador e Formador Geral da Comunidade Filhos de Sião

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