Queridos irmãos, escolhemos o tema ORAÇÃO, porque estamos vivendo o Ano da Oração. Ao dedicar este ano como tal, escreveu o Papa Francisco: apraz-me pensar que este ano que precede o Ano Jubilar possa ser dedicado a uma sinfonia de oração, antes de mais, de recuperar o desejo de estar na presença de Deus. O desejo de o escutar e o adorar. Escreve ainda o Papa: Possamos nós espelharmo-nos em Francisco de Assis, que não era o homem que orava, mas o homem feito oração.
Tomando os Estatutos Filhos de Sião, no Art. 2, parágrafo 2, temos: “Em vista do Carisma, a Comunidade tem como essência o amor incondicional a Jesus Cristo e a sua Igreja. Amar Jesus e a sua Igreja com todo o coração, com todo o ser e com todas as forças seja a razão da oferta de vida do Filho de Sião. Este torna-se alma esposa para viver a oração contemplativa, a conversão diária e a vida fraterna.”
E no Art. 44, temos: “A Oração Pessoal é o momento de estar a sós com Deus, de contemplá-lo, de falar com Ele e de escutá-lo. Assim, cada membro “suba à montanha” diariamente, certo que Ele o estará esperando.”
Sião contempla, adora, escuta, conversa. Podemos dizer que o DNA da alma do Filho de Sião é: Louvor, Adoração, Contemplação, Conversão Diária e Vida Fraterna. Para o humano e o divino se encontrarem, o lugar de encontro precisa de espaço. Onde acontece esse encontro, irmãos? No coração. É aqui dentro onde esse encontro acontece, é neste lugar onde Deus mora, no que chamamos de coração bíblico. É no interior onde o humano e o divino se encontram.
Dessa forma, irmãos, vou apresentar-lhes um percurso de oração feito pelo nosso baluarte São Francisco:
Francisco, quando começou o seu processo de conversão, ele procurou em todos os lugares ouvir os sons da presença íntima de Deus. Faz-se necessário, então, subir à montanha do nosso interior para alimentar tal intimidade. Francisco subia as montanhas de Assis não somente para rezar, mas para alargar o espaço da intimidade interior com o Senhor. Ele queria dar continuidade àquilo que ele experimentou de forma profunda. Já dizia os escritores que ele adquiriu os estigmas de Cristo no seu corpo, porém ainda mais na sua alma.
Somos mais conhecidos pelo nosso Criador do que por nós mesmos
A oração é a fonte da nossa vida. Orar é estar em casa consigo mesmo, na presença de Deus. A cidade de Assis havia se tornado uma economia mercantil movida pelo lucro. E nós sabemos que onde o lucro chega, ele minimiza as relações humanas. As pessoas não conversam mais, não se alegram mais, não têm tempo para nada. O lucro e a ganância monetizam os relacionamentos e excluem os pobres. Antes de sua conversão, Francisco tinha horror aos leprosos e aos pobres em vista do dinheiro. Quando experimentou Deus, ele fez essa leitura de onde ele vivia e começa um processo de oração. Na oração, aprendemos a controlar as nossas vidas e a partilhá-las com o Senhor. Nós só vamos saber quem somos quando verdadeiramente nós nos relacionarmos com Deus. Muitos santos reconheceram quem eles eram de verdade a partir do momento que eles se relacionaram com Deus. Portanto, somos bem mais conhecidos pelo nosso Criador do que por nós mesmos.
Dessa forma, podemos dizer que oração é tornar-se consciente do nosso “eu interior”. O nosso eu interior chama-se “alma”, o “eu que pertence a Deus”. É diferente rezar com a mente, rezar com a boca e rezar com a alma. Quando Francisco rezava, ele dirigia toda a sua atenção e todo o seu afeto àquilo que ele estava dizendo ao Senhor. Ele era uma oração viva. Assim sendo, tornar-se oração viva é entrar em um novo lugar de refúgio em Deus, em um lugar de união ao Amor. Quem reza adentrando no seu interior, este está no mundo de uma forma nova, prazerosa, vendo Deus até nas situações mais difíceis ou impossíveis. À medida que a oração dá origem a um novo universo interior, a minha alma vai se expandindo em amor. Então, quem amplia o seu interior por meio da oração, a alma se expande-se em amor. O amor triunfa sobre o mal porque o amor é poder de Deus em nós.
O amargo se tornou doce
Por conseguinte, os escritores dizem que a conversão de São Francisco aconteceu no encontro com o leproso. É sabido que ele tinha aversão e repúdio aos leprosos. Fugia deles. Para ele, eram humanos desfigurados. Francisco adoeceu e após a doença, em uma de suas idas e vindas à procura de um lugar que pudesse escutar os sons da intimidade com Deus, ele encontra-se com um leproso, desce então do cavalo, abraça-o e beija sua mão ulcerosa. Diz-se que depois que Francisco beijou o leproso, ele sobe em seu cavalo e segue viagem. Já a uma distância, ele olha para trás e o leproso havia desaparecido. Francisco não para aí. Ele vai em busca dos leprosos, visita-os e os seus olhos começam a se abrirem. O que o enjoava e o detestava, passa a ser aquilo que ele amava: o amargo se tornou doce.
Após esse encontro, aconteceu o encontro de Francisco com o Cristo crucificado. Certo dia, ao entrar na Igreja de São Damião, ele encontra-se com o Cristo crucificado, de repente ele vê os lábios daquele crucifixo se mexendo e lhe falando ao coração: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja; que como vês, está em ruínas.” Gravou-se, pois, na alma de Francisco a compaixão do Crucificado, que a Sua Igreja estava em ruínas.
Voltando à experiência com o leproso, entende-se que o seu desaparecimento se trata de uma técnica literária para dizer que ali não era um leproso comum. Este leproso era o próprio Cristo. Percebamos que o leproso não fala e depois some. Ele era vítima e a vítima não fala. Assemelha-se isso à ressurreição de Jesus. Após este encontro, Francisco vai à aldeia dos leprosos para continuar esse ato de morte e ressurreição. O leproso e o Cristo eram uma só voz de Deus que falava ao coração de Francisco. E para adentrar mais ainda ao seu coração, ele reza outro dia diante do crucificado: “Quem és Tu e quem sou eu?”. Francisco ao olhar para a cruz, ele olhava para a sua própria humanidade. Na cruz ele se espelhava, ele se via. Ele se questionava: “Quem és Tu, oh Deus, para nos amar tanto?”. A oração é, nesse sentido, este encontro do “eu” com o “Tu”. Francisco entendeu que o seu “eu” precisa do “Tu”. Por isso, Francisco deixou a cidade para a alma se expandir em amor. Ele precisava de espaço, que não é tanto físico, mas emocional e psicológico.
Demos espaço, irmãos, para o que há dentro de nós possa transbordar!
“Tu existes muito mais onde tu amas, do que onde tu moras.” O que temos amado, irmãos?
Rezando, Francisco descobriu que o “eu” não é um dado. Ele está em processo de formação em relação ao “Tu”. Quanto mais o “eu” se aproxima do “Tu”, mais o “eu” cresce.
Irmãos, precisamos rezar com este lugar interior que é a nossa alma.
Lá está a nossa identidade.
Quanto mais a encontrarmos, mais seremos felizes!
Vander Lúcia Menezes Farias
Fundadora e Moderadora Geral da Comunidade Filhos de Sião