É bem verdade que, em nossas relações, há muita superficialidade. Nós não estamos preocupados em descobrir o outro. E esse outro é todo “outro”: desde Deus até aquela pessoa que está ao nosso lado. Temos pressa em passar pelo outro, sem desejar descobri-lo. Depois, há as influências externas, as preocupações que nós temos. Vivemos uma época em que realizamos muitas atividades. No passado, parecia que éramos especialistas em alguma coisa. Hoje não! Hoje somos como “clínicos gerais”, ou seja, fazemos muitas coisas ao mesmo tempo. O ideal seria partilharmos essas influências que acontecem entre nós. Contudo, muitas vezes, não partilhamos; ao contrário, “descarregamos” o que está dentro de nós.
Podemos achar a palavra “descarregar” um tanto estranha, mas imaginemos cada um de nós como uma canoa ou um barquinho. Percebamos que o que faz afundar não são as águas externas; pelo contrário, são elas que sustentam. O que faz afundar são as águas que estão dentro do barquinho. E, muitas vezes, essas águas que estão dentro de nós não são boas: são águas contaminadas. Por isso, vão nos corroendo, diminuindo, ferindo e fazendo-nos perder energias e potências. E aí o barquinho afunda, não tem jeito. É preciso que nós joguemos fora essa água ruim que está dentro de nós. E a água viva, nós sabemos qual é! Foi nesse sentido que busquei esse assunto: em vez de “superficialidade”, usei a palavra “sacrifício”.
Para quem ama — dizia o político Benjamin Franklin — qualquer sacrifício é alegria. E Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “Um dia sem sacrifício é um dia perdido”.
Assim, essa água boa, que nós vamos chamar de “amor”, que está dentro do nosso barquinho — esses amores que carregamos desde que começamos a ter noção do que é amar, ainda na pré-adolescência, e que se desenvolvem mais na adolescência e na juventude —, esse amor, ou essa água viva, pode se eternizar por toda a nossa existência. Tudo é questão de cultivar, de regar diariamente.
O amor sobrevive de entrega, e, se fôssemos falar disso, levaríamos muito tempo. Compare a chama do amor ao fogo do Espírito Santo: quando partilhamos o fogo, não ficamos pobres. Se cada um de vocês estivesse com uma vela na mão e eu com a minha, e apenas a minha estivesse acesa, ao partilhar o meu fogo, eu não o perderia; ao contrário, o derramaria, espalharia e contagiaria a todos. Portanto, a água viva que está dentro de nós consiste nessa entrega que não se perde. Por isso, ela não dispensa sacrifício — e esse sacrifício não é apenas uma vez, mas um sacrifício cotidiano. Para nós que vivemos vida comunitária, é isto: sacrifício cotidiano. Quem se abre ao amor sempre precisa esvaziar-se de si mesmo ou de alguma coisa para poder hospedar o outro. Se o meu barquinho já está cheio, eu não consigo hospedar mais nada.
Temos em nossa Igreja o Beato Tiago Alberione, que diz: “O amor que não leva ao sacrifício é uma farsa; é apenas sentimentalismo”. E ele conclui: “O amor se prova com sacrifício”. Eu penso que o maior inimigo dos amantes, dos casais e da vida comunitária é desejar um amor adocicado: um amor sem dor, sem esforço, sem renúncia pela pessoa amada. Como se fosse possível algum amor isento de sacrifício. Eu penso que, se existe amor, há necessidade de sacrificar-se.
Poderíamos até dizer, de certa forma, que amar é se perder, porque nós nos esvaziamos e nos entregamos. Não sabemos o que existe no outro. É uma grande aposta: perder-se a si mesmo para encontrar-se no outro. Alguém já disse que “o amor é o nosso verdadeiro destino”. Nós não encontramos o sentido da vida sozinhos; por mais que tenhamos muita água boa no nosso barco, nunca encontraremos sentido apenas nela. O sentido nós vamos encontrar no outro. E é aí que, a meu ver, entra a questão do poeta: fazer o exercício de saber olhar. O contrário da superficialidade é saber olhar com amor.
Nós precisamos descobrir esse olhar: um olhar sem pressa, um olhar que devolve ao outro um amor que não precisa se traduzir. Encontramos inúmeros homens e mulheres, santos e santas, que passavam grande parte do dia olhando para o Santíssimo. Eu não sei o que diziam ou se falavam. Nós só sabemos que olhavam, sem medo de se esvaziar: um olhar generoso, cativante, que faz sentir-se presença. Eu penso que quem olha assim para o Santíssimo não vai cobrar perfeição alguma — nem nós de Jesus, nem Ele de nós. Ele nos ama como somos. Agora, Ele se esvazia para nos acolher. E, se nós fizermos isso, aí vem a famosa perfeição.
Na vida comunitária, precisamos aprender esse tipo de olhar amoroso, olhar com a alma, mesmo quando o amado não é suficiente. Ele é insuficiente porque nós ainda não temos a famosa maturidade do olhar. Não sabemos escutar o olhar. Escuta-se o olhar sem julgamento, sem pressa. Nós que vivemos vida comunitária corremos um sério risco, porque os nossos olhares recaem sobre coisas inseguras. Geralmente, eu julgo o outro pelo que acho, ou tentando adivinhar o que o outro está querendo; mas não escuto verdadeiramente aquele olhar. Porque o olhar fala — e nós não o escutamos. Às vezes, esse julgamento é terrível: querer adivinhar o que a outra pessoa tem ou quer. Não é assim. É muito difícil encarar o outro sem precisar dizer nada.
Os Evangelistas nos dizem que Jesus olhou para aquele moço e o amou. É esse olhar! Quer fazer uma experiência difícil? Olhe para quem está ao seu lado por um minuto inteiro, sem desviar o olhar, e, com esse olhar, diga que o ama. É um exercício que precisamos fazer de vez em quando, pois os olhos revelam a alma.
Nas famílias, nas religiões, nas amizades, no coração, o amor padece de afeto; está morrendo por falta de profundidade. Nós somos muito viciados em leitura dinâmica, em querer ler tudo de uma vez. Falta profundidade. Eu penso que é preciso fazer uma pausa para o amor. Vocês têm como lema: “O Amor não é amado”. Se eu fosse escolher um lema, eu diria: “O Amor não é ouvido”. Por quê? Porque as pessoas só sabem gritar. Não se ouve, não se olha; grita-se. Como se isso fosse suficiente para acalmar.
A escuta é o alimento que torna vivo o amor. Antigamente, havia uma série na Globo chamada Kung Fu, que mostrava muita filosofia da cultura oriental; e um dos episódios me ajudou muito. Eu fui tomar banho uma vez na praia de Copacabana, e, naquele dia, a água estava me carregando. Lembrei-me daquele episódio em que o sujeito passou vários dias dentro de uma caixa de ferro exposta ao sol; todos os que saíam dali eram carregados, pois estavam desmaiados. Quando abriram a caixa, porém, ele saiu andando normalmente. Todos ficaram impressionados. Ele disse que, nos momentos de perigo e tribulação, procurava ouvir as batidas do próprio coração, buscando forças interiores ali. Para isso, é preciso um grande exercício de concentração.
Da mesma forma entre as pessoas: se o amor precisa ser ouvido, nós deveríamos nos esforçar para ouvir as batidas do coração do outro. É uma batida silenciosa, porque o amor é assim: quanto mais discreto, mais profundo e autêntico ele é. Não adianta nada dizer o tempo todo: “EU TE AMO! EU TE AMO!”. Nós precisamos, de fato, escutar o que o outro está querendo dizer, o que aquele olhar quer transmitir. Porque cada um tem seu jeito de dizer “Eu te amo” com o olhar, e esse olhar precisa ser traduzido. Infelizmente, nem todos conseguem. Isso é difícil porque nós temos pressa de resposta — é a famosa “pressa ou impaciência histórica”, que busca ver logo o resultado. E isso é outra dificuldade para nós que vivemos em Comunidade. Cada um tem uma experiência de espiritualidade, de crescimento, de aprofundamento, de encontro com Deus, e quer que o outro tenha a mesma experiência sua ou maior que a sua. Essa pressa histórica muitas vezes impede o crescimento da Comunidade.
O desafio do amor passa muito pela palavra. Requer sensibilidade para entender e aceitar que o amor não nasce pronto. Seria tão bom que o amor fosse pronto desde o começo, mas ele é um processo. Na Comunidade, o amor é uma construção conjunta; não depende só de um. Acho que daí nós entendemos o que é Carisma: uma construção conjunta do amor, fundamentada no nosso chamado, porque, caso contrário, cada um vai querer fazer do seu jeito. É preciso entrar na vida do outro, mas, para isso, nós precisamos permitir que o outro entre também na nossa vida diariamente. Assim, veremos que o ritual do amor nunca se acaba. Quanto mais se repete esse ritual, mais ele se fortalece, mais se plenifica — porque assim é o amor.
Se você quiser entender isso, entenda a Eucaristia. Nosso Senhor sabe que o ser humano tem fome, e Ele se fez amor em comida. A pessoa pensa que vai comer um pão, e acaba comendo a pessoa de Jesus!
O amor é uma experiência que nos transforma no outro. Nosso Senhor sabia tanto disso que fez um pedido ao Pai: “Que todos sejam um!”. Nós nos tornamos “um” quando nos tornamos “o outro”. Para isso, apagamos o nosso “eu” para ser o “outro”. Sem sacrifício, essa transformação é impossível. É o sacrifício que nos dá forças para ceder o nosso eu, acolher o outro e sermos “um” no amor.
O amor não é uma transação, mas um sacrifício. O amor não é um comércio; é um lugar de culto. Quer dizer, quando eu chego à Comunidade, ali é o meu lugar sagrado, o meu lugar de sacrifício. Ali é o lugar onde preciso tirar a água ruim do meu barquinho e substituí-la pela água boa: a água que me dá prazer, que me realiza, que me faz ser alegre; a água do compromisso, da fé, da amizade, e assim por diante.
Há uma frase que diz: “Devemos amar o outro pelo seu próprio bem, e não pelo bem que dele retiramos”. Não pode existir nenhum tipo de egoísmo nessa relação.
Mons. Raimundo Nonato Timbó de Paiva
Pároco da Paróquia São Manuel de Marco/CE