Formação

Retiro Comunidade de Vida 2025 – Obediência

A obediência é algo fundamental na nossa vida; na verdade, é parte constitutiva dela, porque é parte constitutiva da vida de Cristo. E nós aprendemos, no vocacional, que não existe vida consagrada sem obediência, castidade e pobreza. Logo, não podemos viver sem essa graça, sem esse dom — que é muito mais do que graça e dom: é um meio de nos conformarmos a Cristo, de nos parecermos com Ele.

Assim, a obediência é uma entrega total ao querer de Deus. Ela não é a mesma coisa que submissão, embora ambas estejam relacionadas. A submissão diz respeito à lei, às regras e à vida concreta que somos chamados a viver. Já a obediência é um dom, uma graça que nos torna semelhantes a Cristo.

Ele foi obediente até a morte, e morte de cruz

Vivemos a obediência por meio da submissão: a submissão é o caminho, e a obediência é o objetivo. O próprio Jesus foi submisso aos seus pais e às leis do seu tempo — Ele até pagou imposto a César. Assim, sendo submisso, foi obediente ao Pai.

A nossa obediência é a mesma obediência que Cristo teve. Ao olhar para Ele, percebemos dois aspectos. Primeiro, vemos Cristo como o Senhor, o Kyrios. Jesus é o Senhor porque foi obediente. A Bíblia diz que Ele obedeceu até a morte — morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome.

É Deus quem concede autoridade a Jesus. A partir disso, também compreendemos o sentido da autoridade em nossa vida comunitária. A autoridade é instituída por Deus, por Cristo. Portanto, para que eu seja submisso à autoridade e, assim, obediente a Cristo, preciso reconhecer que minha autoridade é voz de Cristo para mim. Quando entendo isso, minha vida ganha um sentido mais profundo. Pode ser exigente, sim, mas percebo que, para ser obediente a Deus, devo passar pelo meu responsável, pela comunidade, pelos fundadores e por todas as pessoas que Ele constituiu como autoridades sobre mim. Dessa forma, a obediência se concretiza por meio da submissão.

Cristo se coloca a serviço de toda a humanidade

Jesus também passou pela submissão humana. E, justamente por ter vivido essa submissão, tornou-se o Senhor. Na vida de Cristo, vemos que Ele se tornou Senhor, mas também servo — não apenas Senhor, mas servo obediente. Cristo se coloca a serviço de toda a humanidade. Por sua obediência, Ele salva a todos.

A nossa salvação acontece pela obediência de Cristo. Ele foi obediente ao Pai até a morte — e morte de cruz — e, por isso, nós fomos salvos.

Assim, do mesmo modo que Jesus foi obediente e nos salvou, eu também só serei salvo se for obediente a Ele. Durante a oração, lembrei-me do tema do vocacional deste ano: “Senhor, não a minha, mas a Tua vontade.” Em Jesus encontramos alguém totalmente rendido à vontade do Pai.

Sinal de Salvação

Desse modo, concluímos que a obediência é uma aceitação filial da vontade de Deus. Essa vontade supera a nossa; é melhor do que a nossa e vai além do que podemos compreender.

A obediência que vemos em Jesus — uma obediência plenamente submetida ao Pai — não pode permanecer apenas no plano abstrato. E como nos submetemos ao Pai? Por meio das regras, dos estatutos, das autoridades e de tudo aquilo que Deus sonhou e continua a sonhar para nós.

Assim, Jesus, por sua obediência, torna-se autoridade, torna-se servo e salva toda a humanidade. Pelo Batismo, somos introduzidos nesse Mistério Pascal de Cristo. E, ao participar desse mistério, nossa própria obediência também se torna sinal de salvação para o outro. Assim como a obediência de Cristo me salva, a minha obediência a Deus me salva — no sentido de acolher a salvação que vem de Cristo — e também coopera para a salvação dos outros.

Desobedecer, não viver a obediência, é quebrar o plano de Deus. Quebrar a obediência é deixar de ser instrumento de salvação. Quando não vivemos a obediência, deixamos de ser instrumentos de salvação para o nosso irmão e nos tornamos instrumentos de queda. Podemos ser inferno em vez de céu. A desobediência fecha as portas do céu para nós.

E aqui não falo apenas do céu como paraíso ou presença de Deus. A desobediência impede o nosso crescimento, nos mantém estagnados na graça de Deus e bloqueia o processo de maturidade. Ela gera algo muito sério em nossa vida e em nossa casa: desarmonia. Sabe por quê? Porque, quando alguém não obedece, todos começam a falar dele. Depois, todos falam de todos, sem olhar para si mesmos. Ou então você não fala com quem desobedece, mas fala do responsável, daquele que deu a ordem.

Obediência de Cristo é redentora

O Papa Francisco chamou a fofoca de “terrorismo”, e é exatamente isso: a desobediência não é apenas motivo de queda para nós, mas também para o nosso irmão. Ela não contribui para a edificação de ninguém. Por isso, a obediência de Cristo é redentora: Ela nos salva à medida que também somos obedientes.

Redenção significa buscar de novo, readmitir, trazer de volta aquilo que já era seu. Por isso, somos convidados a viver a obediência como um dom, uma graça que, como disse nossa fundadora, é caminho de santificação e purificação. A obediência nos purifica, e devemos levá-la ao extremo, como fez Jesus.

É fácil obedecer quando o que nos é pedido está de acordo com nossas próprias ideias. É fácil obedecer quando concordamos. Mas obedecer quando discordamos é um verdadeiro desafio. Obediência não é apenas cumprir ordens; obediência é confiar, mesmo quando não compreendemos ou não aceitamos imediatamente o que nos é pedido.

Devemos acreditar que aquilo que nos é pedido vem de Deus, mesmo sem entender completamente. Pela graça da obediência, somos purificados. Mais do que o cumprimento de atos, obediência é deixar-se converter. É um instrumento de conversão e purificação em nossa vida. Até o fim de nossos dias, precisamos obedecer.

Art. 73 — Estatuto Filhos de Sião

Na Comunidade, a obediência deve ser vivida como uma grande fonte de bênçãos. Ela é o instrumento eficaz que o Senhor usa para purificar a vontade do homem, libertando-o de si mesmo e de possíveis enganos. Que a obediência seja o caminho seguro de santidade, de escuta e de cumprimento da vontade de Deus.

O membro da Comunidade deve viver a virtude da obediência, obedecendo ao Magistério da Igreja, às Sagradas Escrituras, ao Santo Padre, aos Senhores Bispos e às autoridades constituídas na Comunidade. A obediência gera no Filho de Sião um coração humilde e pequeno. Jesus é o modelo perfeito de obediência pronta e disposta à vontade do Pai. É a este Cristo obediente que o membro é chamado a olhar e seguir nas situações práticas do dia a dia.

A obediência, portanto, gera santidade pessoal e comunitária, e também abre portas para a humildade, o desapego, a simplicidade e a alegria (cf. Fl 2, 2-8). Costumamos dizer que só obedecem os humildes, mas aqui vemos que a obediência faz o humilde; a obediência faz o santo. Primeiro eu obedeço; depois, Deus, por meio da graça da obediência, transforma meu coração e me purifica.

A obediência se manifesta nas pequenas coisas; não está no extraordinário, mas no ordinário. É preciso ver a Comunidade como obra de Deus, como uma instituição capaz de delegar, de dar, de se tornar real e concreta — e não apenas algo presente em livros.

Art. 89 — Estatuto Filhos de Sião

O membro da Comunidade de Vida, por livre-arbítrio, fez sua promessa ao Senhor de se conformar a Ele e de, em tudo, cumprir a Sua vontade. Em vista dessa promessa, a Comunidade de Vida deve viver a obediência da fé (cf. CIC 144).

A obediência é um dom de Deus, concedido a todos, para que possam seguir a Sua Palavra, sabiamente interpretada e transmitida pelo Magistério da Igreja. A Comunidade de Vida deve obedecer e amar as autoridades constituídas, o Santo Padre e os Senhores Bispos, que são vozes e instrumentos de Deus na caminhada de cada membro.

Art. 90 — Estatuto Filhos de Sião

Os membros devem evitar o espírito de fofoca, crítica, murmuração e desconfiança. Devem aceitar os discernimentos das autoridades constituídas na Comunidade e viver, com humildade e oração, aquilo que lhes foi pedido ou ordenado. Quando necessário, é possível dialogar; mas, em tudo, é fundamental submeter-se à vontade de Deus.

Ordem significa colocar em ordem aquilo que há em nossos corações. Devemos evitar críticas entre nós e pedir a Deus a graça de vivermos conforme os nossos Estatutos.

Pela obediência, somos convidados a participar da kénosis, do aniquilamento de Cristo. Quem obedece se aniquila: se quebra, se deixa moldar, retira o que é próprio e se purifica. E apenas os puros verão a Deus.

 

Marília Ivina Mendes
Consagrada na Comunidade de Vida com Promessas Definitivas

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