3ª Semana
Deus nos fala em meio à tempestade
O evangelista Marcos começa narrando o texto assim: “no entardecer daquele dia”. Entardecer é o tempo que antecede a noite, símbolo de escuridão e perigo. Mas Jesus pede para atravessarem o lago. Em seguida, lemos que os discípulos “o levaram, tal como estava, na barca”. Parece que Jesus se demorou para se despedir da multidão, de tal modo que seus companheiros, pressentindo o temporal, trataram de arrastá-lo às pressas para dentro da barca. Mateus, que segue Marcos nessa narrativa, prefere ressaltar a autoridade de Jesus e o coloca como protagonista: “Depois disso, Jesus entrou no barco e seus discípulos o acompanharam” (Mt 8,23).
Por que Deus aparece falando “do seio da tempestade”? No Antigo Testamento, vemos o Êxodo, os Salmos e os Profetas se referirem a Deus a partir de fenômenos naturais grandiosos, que provocam medo e admiração ao mesmo tempo. Por exemplo, no livro do Êxodo, Deus fala a Moisés em meio a raios, trovões e terremotos.
Outra curiosidade do Evangelho de hoje é que Jesus, apesar da tempestade, dormia tranquilamente sobre um travesseiro, na popa do barco. Este detalhe nos lembra o profeta Jonas, que, em meio ao temporal, dormia profundamente no fundo do navio ( c.f Jn 1,5). Talvez isso esteja relacionado à comparação que Jesus faz, dizendo que o único sinal que seria dado à geração que pedia milagres seria o sinal de Jonas (Mt 12,38-42), ou seja: assim como Jonas permaneceu três dias na barriga da baleia, Jesus ficaria três dias no ventre da terra, para depois ressuscitar.
Desse modo, qual seria a diferença entre o sono de Jonas e o de Jesus?
Podemos perceber que Jonas dormiu para fugir do chamado do seu Senhor. Dormiu para esquecer, negar sua vocação, desviar-se do caminho. Jonas não acreditou na palavra do Senhor, preferiu permanecer afogado em seus planos, na vida que poderia conquistar sozinho.
Já o sono de Jesus manifesta que Ele estava em dia com o Pai, cumprindo sua missão e descansando com total confiança, como diz o salmista:
“Dentro de mim, tudo se aquietou. Paz e serenidade vieram para ficar. Igual à criança depois de mamar: dorme tranquila no colo da mãe.” (Salmo 130)
Para refletir:
- Queridos irmãos, que sono nós estamos? São Paulo nos alerta: é preciso despertar, a noite vai adiantada e o dia vem chegando.
- Será que nosso sono é obra das trevas de que São Paulo tanto fala?
- Será que estamos vestidos de pecados, ilusões, fantasias, planos e preocupações que nos afastam do essencial?
- Nosso sono é uma fuga?
- Estamos dormindo porque colocamos nossa vida confiantemente nas mãos de Deus?
O Senhor quer falar na tempestade em que nos encontramos. Clamemos a Ele. Tenhamos coragem de gritar; o grito é uma característica dos Filhos de Sião. Para romper nossa surdez, o Senhor escolheu gritar, para que saíssemos do sono da indiferença. Em meio à tempestade, o Senhor quer fazer uma obra nova em cada um de nós.
Francisco Adriano Silva
Cofundador e Formador Geral da Comunidade Filhos de Sião