Meus irmãos, nesta noite e ao longo desta Semana de Formação, somos convidados a refletir sobre um tema essencial para a vida cristã: a oferta de vida e a missão. Não existe missão sem vida ofertada, porque a missão é sempre consequência de quem decidiu entregar totalmente a própria vida a Deus.
O Chamado ao Seguimento Radical
À luz do Evangelho de São Mateus, capítulo 8, encontramos Jesus no meio de uma grande multidão. Ele realizava milagres, despertava admiração e entusiasmo no povo. No entanto, é justamente nesse contexto que surgem duas aproximações a Jesus, revelando diferentes maneiras de responder ao chamado.
O primeiro homem, um escriba, diz com entusiasmo: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que fores”. Ele está tocado pelo que viu, mas ainda não sabe para onde Jesus vai. Por isso, o Senhor responde com sinceridade: “As raposas têm tocas, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Seguir Jesus, portanto, não é um caminho de conforto, mas de total confiança. O segundo também deseja seguir Jesus, porém coloca uma condição: pede para primeiro resolver seus assuntos familiares. Diante disso, Jesus revela que o seguimento não admite negociações nem adiamentos. Quem realmente fez uma experiência profunda com Deus não impõe condições à própria entrega.
Esse Evangelho nos apresenta, assim, dois pilares fundamentais da vida missionária: a pobreza e a obediência. Seguir Jesus exige um coração livre, capaz de confiar sem garantias humanas. E essa confiança só é possível quando existe amor, pois só confiamos verdadeiramente em quem amamos. Entretanto, vivemos em um mundo marcado pelo excesso de cuidado consigo mesmo. Tudo gira em torno do bem-estar pessoal, da autopreservação, da saúde e do conforto. Quando essa lógica ocupa o centro da vida, Deus é deslocado, surgem crises vocacionais, a missão enfraquece e a entrega se esvazia.
Cuidar do corpo e da mente é necessário. Contudo, o problema começa quando o “eu” ocupa o lugar que deveria ser de Deus. Quem coloca a própria vontade acima da vontade divina encontra dificuldade para obedecer, renunciar e lançar-se com generosidade na missão. Por isso, a oferta da vida só é possível para quem teve uma verdadeira experiência do amor de Deus. Quem se sente amado entrega-se. Quem não se sente amado retém a vida, protege-se excessivamente e calcula demais. Os santos e missionários transformaram o mundo porque se esqueceram de si mesmos. Não foi o conforto que os moveu, mas o amor. Toda vida oferecida passa pela renúncia, pelo sacrifício e pelo abandono confiante nas mãos de Deus.
Missão: Entrega, Testemunho e Amor
Diante disso, compreendemos que hoje já não se trata de nós. Não é mais sobre o que eu quero, o que eu sinto ou o que me convém. Trata-se do povo que ainda não conhece a Deus, dos jovens perdidos, das famílias feridas e de uma humanidade que sofre e espera alguém que anuncie o amor verdadeiro. A Igreja é missionária por sua própria natureza. Não existe Igreja sem missão. E toda missão nasce de um encontro pessoal com Jesus. Quem evangeliza não convence apenas com discursos, mas testemunha com a própria vida: sou feliz porque fui amado por Deus. Se a nossa oferta de vida é frágil, a nossa missão também será frágil. Uma vida oferecida de maneira superficial não sustenta uma missão fecunda.
Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho. E o Filho, por amor, devolveu tudo ao Pai. Do mesmo modo, quem se sente amado devolve a própria vida a Deus. Por isso, seguir Jesus é dizer com verdade: “Senhor, eu irei para onde Tu fores”. Mesmo sabendo que o caminho passa pela cruz, pois é na cruz que o amor se torna pleno e fecundo.
Em síntese, a missão só é possível para quem aceita perder a própria vida por amor.
Quem perde a vida por Jesus, na verdade, é quem verdadeiramente a encontra.
Francisco Adriano Silva
Cofundador e Formador Geral da Comunidade Filhos de Sião