Por que estamos nos retirando?
Um retiro espiritual é um tempo de recolhimento, silêncio e oração, destinado a todos aqueles que desejam mergulhar mais profundamente no mistério de Deus. É um tempo em que nos afastamos das preocupações do dia a dia, dos barulhos e distrações do mundo, para abrir espaço ao que realmente importa: o encontro pessoal com o Senhor.
Estarmos aqui significa algo muito importante: Deus nos escolheu. Ele nos chamou, nos convidou a esse momento de intimidade com Ele, e isso já é motivo de grande alegria e gratidão. Participar de um retiro não é apenas mais um evento ou compromisso; é um encontro com Aquele que nos criou e nos ama de maneira única. Esse costume não é novidade da comunidade Filhos de Sião, nem algo exclusivo da nossa realidade; é uma prática muito antiga na Igreja, que acompanha a história da vida espiritual de tantos santos e consagrados.
Jesus buscava estar a sós com Deus
A passagem do nosso ano vocacional é clara e nos inspira: Jesus se retirava para rezar ao Pai, para escutá-Lo, para estar em comunhão profunda com Deus. Ele se afastava para não se deixar dominar pela correria, pelo barulho ou pelas tentações. Precisamos aprender com esse exemplo: se queremos discernir a vontade de Deus para nossas vidas, é preciso nos retirar também, criar espaços de silêncio interior e exterior, para ouvir a voz do Pai. Jesus buscava estar a sós com Deus não por necessidade de descanso físico, mas para perceber o que o Pai queria comunicar. Essa prática nos ensina que a oração e a contemplação são caminhos fundamentais para a liberdade interior e para a obediência à vontade divina.
O objetivo de um retiro espiritual vai além de momentos de silêncio ou reflexão: é saciar a fome de Deus. Cada coração presente aqui foi inquietado pelo amor de Deus. Todos nós sentimos, em algum nível, uma inquietação, um desejo de plenitude, que nada do mundo consegue satisfazer. Hoje, Deus quer saciar essa fome. Ele quer nos alimentar daquilo que realmente nos dá vida: Sua vontade, Sua presença e Sua Palavra.
Participar de um retiro nos dá também a graça de nos tornarmos livres de nós mesmos. Somos frequentemente presos pelo orgulho, pelo egoísmo, pelas ideias que temos sobre nós ou pelo medo de deixar o controle de nossas vidas. Um retiro nos desafia a abandonar tudo isso: nossos planos, nossa segurança, nossos “jeitos de fazer”, e nos ensina a confiar plenamente em Deus. É o momento de sair de si mesmo e permitir que algo novo aconteça — permitir que Deus transforme o coração, revele novos caminhos e nos mostre aquilo que jamais imaginaríamos.
Deus nos torna verdadeiramente livres
Alguns chegam ao vocacional já decididos sobre a vida que querem levar, mas o retiro é o lugar de se deixar conduzir pelo Espírito Santo. É um convite a viver a surpresa de Deus. Ele nos chama a nos desprender de nossas certezas, de nossos apegos e até de nossos próprios sonhos, para que possamos acolher os planos divinos. Viver essas surpresas de Deus nos torna verdadeiramente livres: livres de nós mesmos, livres para servir, livres para amar e livres para seguir Jesus com coragem.
Esquecer de si mesmo, deixar-se conduzir pelo Senhor, é uma experiência que revigora profundamente. Aqueles que participam do retiro saem mais fortalecidos para o trabalho de missão, para o serviço ao próximo e para a vida de oração. O Senhor nos chama a ser Seus seguidores, e é por isso que sentimos inquietação: é Ele que nos move, nos provoca e nos convida a dar passos que muitas vezes não entendemos completamente. Não somos produtos expostos na vitrine da comunidade, mas seguidores de Jesus. Queremos caminhar com Ele, imitar Seu amor, Sua entrega e Sua compaixão.
Ao final de um retiro espiritual, saímos reconciliados com Deus e conosco mesmos. Sentimos o perdão, a paz e a presença de Deus de maneira concreta. É um tempo de cura, de crescimento e de encontro com a própria vocação.
Deus é infinitamente grande. Ele não precisa de nós, mas deseja nos envolver, nos amar e nos revelar Seu mistério. Não resistamos a esse convite; ao contrário, abracemos com confiança.
Todos nós queremos ser iguais a Jesus? Seguir Seus passos, deixar-nos conduzir por Ele e viver o Seu amor em nossas vidas é o desafio que nos é apresentado aqui. Que possamos abrir o coração, desapegar-nos de nós mesmos e dizer, como Ele disse: “Não a minha, mas a Tua vontade seja feita!”
Francisco Adriano Silva
Cofundador e Formador Geral da Comunidade Filhos de Sião