Quando começamos os retiros da Semana Santa, foi na comunidade de vida. Na época, eu fazia parte dela, e hoje me lembrei de algo que aprendi lá: quantas Quintas-Feiras Santas inúteis nós já vivemos. Aprendi que a missa começa hoje e só termina no sábado. Isso marcou profundamente o meu coração, porque Deus falou de uma forma tão perfeita.
O amor tem dessas coisas: Nos ensinar!
Esses dias são santos; não são um feriado qualquer. São dias para contemplar e meditar a Paixão e Morte de Jesus, bem como a sua Ressurreição. Jesus institui a Eucaristia, o Sacerdócio e o mandamento do amor. Afinal, hoje é o dia do amor. Hoje é o dia em que Jesus nos serve: Ele se faz servo para lavar os pés dos discípulos.
Eu preciso reparar o sono incontrolável que os discípulos viveram
Quando Jesus conclui todo esse momento — a instituição, a Santa Ceia, o lava-pés — Ele vai para o horto. Nós também somos chamados a reparar o sono profundo dos discípulos. A adoração no horto é um momento de reparação por aquilo que eles não puderam viver: permanecer em vigília e adorar.
Conduzidos por Mateus 26, 36 – 46
No horto, os discípulos deixam Jesus praticamente só. Fazer parte da companhia de Jesus é estar com Ele nos momentos íntimos; e, justamente no momento de dor, Ele chama três discípulos, mas eles adormecem profundamente. Jesus fica só… e então o anjo desce. A tristeza de Cristo era tão grande e profunda que alcançou também os discípulos, que dormiram por causa dela. Era uma verdadeira batalha espiritual. Jesus ficou face a face com as nossas maldades.
Até Jesus, em sua humanidade, sentiu o peso de fazer a vontade de Deus: “Se possível, afasta de mim este cálice”. Ele chegou a suar sangue, um fenômeno causado por uma angústia extrema. Jesus passou por tudo isso sozinho, pois seus discípulos dormiram. Nesse momento, como diz Santa Faustina, o Amor ficou cara a cara com o pecado.
Jesus ficou face a face com as nossas maldades
Como é difícil chegar à Casa da Paz e adorar Jesus… há, de fato, uma luta espiritual para adorá-Lo. Nós, que somos chamados a estar na companhia de Cristo nos momentos íntimos de adoração, muitas vezes também dormimos… estamos dormindo.
Somos chamados, nesses três dias, a adorar o Cristo que foi atormentado pela maldade humana, que viveu a solidão profunda causada pelos amigos que amou — e que, pouco antes, teve seus pés lavados por Ele. É preciso ter parte com Cristo, contar com Ele. Há momentos em que Jesus nos serve — e sempre haverá.
A cruz, Jesus já a carregou por mim
A Igreja faz memória da Paixão não como uma cobrança — até porque não temos condição de pagar —, mas como anúncio de salvação. Quando Jesus diz “tudo está consumado”, Ele declara que a dívida acabou. Hoje, o nosso chamado é adorar esse Cristo que está na solidão do Getsêmani, travar com Ele essa luta espiritual, porque a sua alma está triste até a morte.
Vivemos tempos de profunda indiferença, descrença e desesperança. Como falar de amor a um mundo que já não acredita no amor? Como anunciar a esperança de um Deus que faz novas todas as coisas a um mundo descrente? Por isso, somos chamados a reparar, a fazer companhia a Cristo.
“Minha alma está triste até a morte” é uma partilha íntima — dessas que só se fazem aos amigos, aos que estão próximos, aos que permanecem. Pela nossa vocação, tão bela e tão materna, podemos adorar Jesus em todo tempo e lugar. Não podemos viver a Semana Santa como vivíamos anos atrás. Não podemos ter um comportamento pagão — isso já não cabe mais entre nós. Estes são dias de consolar o Amor. Consolar Jesus.
Santa Teresinha contemplou o rosto de Cristo que a consolava e dizia: Ele me viu em sua agonia e derramou sobre mim o seu Sangue divino.
A cruz de Cristo é salvação, é remédio para as nossas feridas
O que sustentou Jesus na cruz foi o amor — a decisão de salvar, de nos salvar. Diante de Pilatos, Jesus deixa claro: ninguém tira a sua vida; Ele a entrega livremente. Afinal, quem poderia contra o Filho de Deus? Foi uma decisão de amor. É tempo de compreender que o que nos leva a dar a vida por Cristo é o próprio Cristo. Foi Ele quem nos amou primeiro, e de tal forma que, mesmo diante da nossa miséria, não conseguimos dizer não. A cruz de Cristo é salvação, é remédio para as nossas feridas.
Jesus travou uma batalha entre a sua vontade humana e a vontade do Pai — e, por isso, suou sangue. E nós? Que batalha temos travado entre a nossa vontade e a vontade de Deus?
Seguimos um Jesus que não termina na cruz. Ele não nos engana; pelo contrário, revela quem somos e o que espera de nós. Somos adoradores, e Ele espera que O adoremos. Ele nos chamou para estar em sua companhia. A sua vida é preciosa para Deus. Fomos resgatados por um preço muito alto. Jesus não morreu em vão, mas para que o Céu fosse aberto para cada um de nós.
Hoje, precisamos consolar o Cristo que está sozinho. Que Deus nos defenda de sentir a falta de Cristo.
Francisca Roberta Fonteles
Consagrada na Comunidade de Aliança com Promessas Definitivas