Formação

O jovem rico

Hoje, falarei de um jovem que, embora semelhante a mim, não teve coragem suficiente para deixar tudo e seguir Jesus. Falarei sobre o oposto da minha vida. E eu falo acerca dele para que vocês compreendam que, apesar da recusa desse jovem ao chamado de Jesus, vocês são capazes de realizar o contrário. Vocês podem deixar-se perder para ganharem mais e mais em Deus.

A palavra-chave que o Senhor suscitava em meu coração, e que Ele queria falar a cada um de vocês é esta: Vontade de Deus. Dizia-me o Senhor: “Meu filho, fala para eles da Minha Vontade na vida deles. Fala que eu, o Senhor, tenho um plano de vida para cada um: um plano de felicidade.”. E é disso que eu venho a falar para vocês. Da Vontade de Deus que me fez deixar tudo, e que pode fazer você também deixar tudo. Essa Vontade que, também, pode dar-lhe a graça da conversão, da mudança de vida.

Dito isso, meus irmãos, eu queria, primeiramente, situar-nos no contexto dessa passagem. Jesus estava subindo a Jerusalém para fazer a Vontade de Deus, Seu e Nosso Pai. No entanto, qual a Vontade de Deus Pai para Jesus? A resposta: que Cristo morresse em uma Cruz para salvar-nos de nossos pecados. Então, Jesus caminhava em direção à sua Paixão, à Sua morte, para entregar-se a Deus, em plenitude. Em Seus discursos, Ele já antecipava este sublime ato de amor quando pregava sobre a oferta, a entrega de si, do seguimento, da vida nova, em Deus. Jesus preparava-se, portanto, para cumprir a Vontade de Seu Pai, entregando a sua vida, plenamente, e sem reservas. Ele anseia que assim, também, façamos.

Antes de entrar mais a fundo, queria dizer que esse jovem, além de ser judeu, era, de fato, rico, cheio de bens. Mas, também, rico de orgulho, de prepotência. Era cheio de si. Ele tinha tudo. Quer o ter, quer o poder. Em virtude disso, encheu-se de orgulho, e quando Jesus chama-lhe a deixar tudo, ele prefere ficar onde está, na segurança de seus bens e de seu poder.

Com uma reflexão mais profunda, comecemos com a pregunta do jovem a Jesus: “Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?”. Jesus recorda-lhe, então, dos Dez Mandamentos. Uma vez que era judeu, o jovem respondeu que obedecia, prontamente, a Lei. Entretanto, questionava-se sobre a sede eternidade que residia em si. Sede de Céu. Sede que está presente em cada coração humano. Sede que se procura saciar com muitas outras coisas. Sede que só se sacia com o eterno. Não se preenche, assim, meus irmãos, a sede de eternidade com aquilo que é passageiro. A eternidade transcende à materialidade, ao visível. A eternidade é infinitude, é totalidade! Quem busca, sempre, o que é passageiro, vive incompleto. Sempre a desejar mais. E mais. E mais. Aquele jovem, assim como você, tinha essa sede. Rico que era, desejava, também, a vida eterna.

Dessa maneira, diante da resposta de Jesus, ele, que desejava aquilo que os discípulos de Cristo querem (note, nesta parte, que o jovem colocava a sua confiança de vida em seus bens), interroga, novamente, o Mestre: “Já observo tudo isso – ele disse – mas o que me falta?”. O que me falta? O que te falta? O que lhe faltava? O que ainda nos falta para herdarmos o Reino dos Céus? Jesus responde-lhe, com a toda a sabedoria: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu, depois, vem, e segue-me.” Jesus sabia que lhe faltava o despojar de seus bens, de esvaziar-se de si, o kénosis. Precisava da mortificação de sua vontade para que pudesse viver a Vontade de Deus.

Irmãos, quase sempre, nossa vontade faz-nos egoístas, e comportamo-nos como crianças! Aquele jovem, meus caros, queria tudo para si, queria salvar-se por suas próprias forças. Jesus diz ser impossível salvarmo-nos por conta própria. Precisamos de Deus, a Quem nada é impossível!

Quando questionado, pela segunda vez, Jesus aponta o caminho da felicidade para o jovem. Dessa forma, o homem só é feliz quando alcança a perfeição. E, embora possuísse muitos bens, o jovem não possuía o principal: Jesus, nossa felicidade, nossa perfeição. Quando confrontado com o chamado de Jesus, quis continuar em sua prepotência. Não quis mudar. Não quis perder-se em Jesus. Somos assim, temos, inúmeras vezes, medo de perder. Perder para Jesus.

Você tem medo de perder para Jesus?

De perder sua vida, seus bens?

Você tem medo de perder o quê para Jesus?

Aquele jovem pensava que se salvaria com aquilo que tinha. Ele se apoiava no TER. A segurança dele estava em suas posses. Mas, quando morremos, não levamos nada! É como diz nosso Papa Francisco: “Para Deus não conta aquilo que temos, mas aquilo que damos”.

Na resposta de Jesus, vê-se a contrapartida em relação ao perfil do rapaz, porque Ele vem falar do SER: “Se queres SER perfeito, se queres SER feliz por completo, vai, vende o que tens, dá-os aos pobres, depois, vem e segue-me”. Enxerga-se, aqui, a necessidade do esvaziamento, da morte de nossa vontade. Aquele jovem precisava, antes de tudo, morrer para as vontades dele, para tudo que ele trazia, para de fato ser aquilo que Deus queria, e quer.

Isto é o que precisamos, meus irmãos: ser aquilo que Deus quer que nós sejamos. Santa Teresinha dizia: “Eu sou aquilo que Deus pensa de mim.”. Será que nós somos aquilo que Deus pensa de nós? Você tem coragem de dizer que é aquilo que Deus pensa de você? Será que você está mesmo vivendo o que Deus pensou, o que Deus sonhou, planejou para você? Santa Teresinha dizia com propriedade isso. E nós? Como está a nossa vida?

Este ano, o tema do nosso Vocacional é: “Senhor, o que quiser, quando quiser e como quiser, eu quero!”. Será que temos essa coragem de querer o que Deus quer, quando quer e como quer ou somos como o jovem rico que não quis, e depois desapareceu? Ele recusa-se a seguir Jesus e perde-se. Preferiu confiar em seus próprios planos que nos planos de Deus. Meus irmãos, eu digo a cada um de vocês: os planos de Deus são bem melhores, a vontade de Deus é bem maior e faz-nos feliz.

O jovem rico sofreu porque não fez a vontade de Deus. Era-lhe “difícil demais”, e perdeu-se em virtude da sua negativa ao convite de Jesus para deixar tudo, e segui-lo. A vontade de Deus é difícil. Caminhar com Deus é difícil e Jesus alertou-nos sobre isso. É a porta estreita! A Vontade de Deus é a parte mais difícil e cheia de obstáculos, mas também é a parte mais feliz! Vocês não encontrarão felicidade maior do que na Vontade de Deus! Digo mais: você só será verdadeiramente feliz quando fizer a Vontade de Deus!

Eu procurei felicidade em muitos lugares: em festas, em bebidas, em más amizades. Apesar disso, a Vontade de Deus sinalizava para mim. Deus dizia para mim como disse ao jovem rico: “Deixa tudo, vem e segue-me”, e eu deixei. Estava na metade do curso de Engenharia Civil, curso do qual eu gostava. Meus pais davam-me tudo o que eu queria e precisava. Era cheio de acúmulos. E, hoje, o Senhor chama-me a viver uma vida de pobreza. O número de roupas e de calçados, na Comunidade de Vida, são contados. Uma pessoa que tinha tudo em excesso enxergou a Vontade de Deus e foi quebrando-se, e foi perdendo-se em Jesus. E eu perdi muito do meu egoísmo, da minha prepotência, do meu jeito de ser. Deus mostrou-me que pode fazer algo novo na minha vida, que algo muito maior pode dar-me!

Já caminhando para o término dessa formação, eu gostaria de falar do conselho que Jesus dá àquele jovem que escolheu o dinheiro como seu deus. Aquele jovem que, segundo muitos estudiosos, poderia ter sido o 13° Apóstolo! No entanto, ele tornou-se uma personagem anônima, alguém cujo nome nem se dignou a Sagrada Escritura preservar! Alguém que poderia ter sido todo de Deus, tornou-se uma pessoa qualquer, um anônimo, alguém que se perdeu, que “morreu”. Ninguém sabe qual foi o rumo da vida daquele jovem.  Só sabemos que ele fez o que queria: a vontade dele.

Então, Jesus diz para aqueles que confiam em si mesmos, em seus bens: “Aquele que já encontra aqui na terra o que procura, não abre o seu coração para a eternidade”. Entretanto, a eternidade não descobrimos aqui. Aqui, tudo passa. A eternidade só se descobrirá no Céu, no tempo de Deus. O jovem procurava o que é eterno aqui, e perdeu-se no que era passageiro. Cuidemos para não nos perdemos no que é passageiro!

E, como minha última colocação, em um Evangelho desta semana, a Santa Liturgia ensinou-nos: aquele que quiser salvar a sua vida, com as suas próprias forças, vai perdê-la, mas aquele que se decide por perder, por morrer, por se esvaziar de si para seguir Jesus, por deixar sua vontade para fazer a de Deus, ele encontrará sua vida, ele herdará a eternidade! A salvação não é o dom que conseguimos com nossas próprias forças, porque por nós mesmos não conseguimos fazer nada. A salvação tem um nome, a salvação é uma Pessoa: JESUS! Por isso, não tenhamos medo de perder, de dar, de fazer caridade, de ofertar-se!

Meditemos, meus irmãos, no coração, como a Virgem de Sião, as seguintes afirmações:

Não queira tudo para si.

Não adianta acumular, meus irmãos.

Há mais alegria em dar do que em receber.

O que conta para Deus é o que damos e a generosidade com que damos.

E, com relação àquilo que perdemos, Deus, novamente, nos dará. Do jeito certo, no tempo certo, da forma correta!

É necessário, meus irmãos, perder para ganhar.

“Somente um coração despojado tem lugar para Jesus.” Estatutos Filhos de Sião

Geraldo Luan Neves Leorne
Consagrado na Comunidade de Vida Filhos de Sião

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